quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Storyteller

Acordei antes do toque do despertador, ao menos isso evitou-me ouvir aquele barulho perturbador, porque para perturbador já basta o que basta.
Ontem não dei por chegares e olha que me deitei bastante tarde. Acendo um cigarro e encho o bule do café. Nem preciso de observar detalhadamente a tua roupa para saber onde estiveste ontem à noite. O cheiro. Também me deste um perfume com o mesmo cheiro que traz a tua camisa.
Oiço-te a calçar as pantufas, já estás a pé portanto. Às horas que chegaste ontem não sei como conseguiste fazer tal proeza. Estás a vir para a cozinha. Dizes «Bom dia» e eu rio-me e digo «Melhor deve ter sido a tua noite», limitas-te a abanar a cabeça e a tirar-me o bule da mão. «Estou sem paciência, estive a trabalhar até tarde, é assim que tens as coisas que tanto caprichas como esse colar que tens posto, ou não?» e foi o que ele disse. Foi o que bastou. Foi o que foi. Rebentei. Foi desta. Diz-se que a corda rebenta sempre do lado mais fraco. Que seja fraca hoje pois será o último dia, sussurrei.
Cheguei ao quarto, tirei o colar e coloquei-o em cima da mesa-de-cabeceira dele. Hoje será o último dia. Depois de tanto tempo adiado estou finalmente a fazê-lo. Devia estar orgulhosa? Devia estar a sentir o gosto à liberdade? Nem o sinto. Sinto apenas que o pior acabou de começar.
Pego numa mala e ponho tudo o que consigo lá para dentro. Exceto coisas que vieram da parte dele. Apenas meu. Para recordações já basta as que tenho. Ah, lembrei-me que na pasta tenho um papel que não me posso esquecer.
Ele continua na cozinha. Chegou ao fim, disse-lhe. Ele faz a cara de um burro a olhar para um palácio. Ah! Como eu me apaixonei por uma pessoa tão vazia como esta, penso. Tens este papel para assinar, o papel do divórcio.
Eu deveria ter sido fria como tu foste. Eu disse que nunca perdoaria coisas deste género. Eu ria de mulheres que também sofreram o que eu estou a sofrer, dizia que a culpa era delas, que não davam atenção, que não se preocupava e que eles procuravam um escape. Mas não, a culpa não é nossa. Nós amámos. Nós cuidámos. Nós choramos noites inteiras enquanto nós não passámos um segundo que seja pelo pensamento deles. E agora estou aqui.

Afinal é verdade, a corda rebentou para o lado do mais fraco. E desta vez não foi para o meu.

19 comentários:

  1. Boa sorte com o blog, gostei do texto!!

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  2. Adorei o texto!!!

    r: Obrigada pelas tuas palavras!

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